Como um Fair Play Financeiro afetaria o futebol brasileiro? Quem estaria em desacordo atualmente? VERSÃO 2025.

Sports Value vem estudando os dados do futebol brasileiro há décadas, e vivemos um momento importante, com o debate sobre o Fair Play Financeiro no Brasil.

Em 2024 lançamos a primeira versão da aplicação do Fair Play Financeiro, mas com dados de 2022 e 2023. O ano de 2023 foi muito impactado pelos recursos extraordinários pagos pela Liga Forte União (LFU).

Na análise da Sports Value os recursos da LFU não são registrados como receitas de operação dos clubes e SAFs.

Essa versão atualizada de 2025 considera os dados de 2024 e dos anos anteriores. Em 2024, clubes brasileiros apresentaram prejuízos somados de R$ -1,7 bi.

Nossa visão é que o melhor mecanismo de regulação utiliza uma análise transversal de dados financeiros e fluxo de capitais.

O Fair Play Financeiro na Europa sofreu muitos “dribles” com patrocínios inflados de empresas ligadas aos times dos magnatas, por exemplo.

Brasil pode aprender com os acertos e debilidades de diferentes modelos mundiais e estabelecer uma regulação moderna, que vise o crescimento saudável da Indústria.

Para a Sports Value o modelo ideal de Fair Play Financeiro é esse transversal, analisando diferentes dados financeiros e índices.

Modelo de Fair Play Financeiro proposto pela Sports Value

1. Déficits – Aplicando a análise para o Brasil com dados de 2024, 2023 e 2022.

Analisando a média dos resultados líquidos dos clubes dos últimos três anos, muitos estão acima dos R$ -20 milhões anuais estipulados como máximo aceitável pela Sports Value.

Superávits / Déficits- Média dos últimos 3 anos – 2022/2023/2024- R$ milhões

Botafogo SAF, Bahia SAF, Atlético-MG SAF, São Paulo, Vasco da Gama SAF, Corinthians, Santos e Grêmio, estão com déficits médios nos últimos 3 anos acima de R$ -20 milhões.

Superávits / Déficits acumulados nos últimos 3 anos– 2022/2023/2024 – R$ milhões

As principais SAFs somaram perdas de R$ 1,9 bi em três anos, por total falta de regulação.

Botafogo SAF – Acumulou perdas de R$ -601 milhões em três anos.

Bahia SAF– Acumulou perdas de R$ -390 milhões em três anos.

Atlético-MG SAF– Acumulou perdas de R$ -351 milhões em três anos.

Vasco da Gama SAF – Acumulou prejuízos de R$ -304 milhões em três anos.

Clubes também estão apresentando déficits enormes.

São Paulo– Acumulou déficits de R$ -312 milhões em três anos.

Corinthians– Acumulou perdas de R$ -165 milhões em três anos.

Santos– Acumulou perdas de R$ -94 milhões em três anos.

Grêmio– Acumulou perdas de R$ -81 milhões em três anos.

2. Controle dos gastos com futebol

Um outro aspecto de análise para o Fair Play Financeiro, depois dos prejuízos, é a análise dos gastos com futebol sobre a receita total.

Para a Sports Value o índice de 73% dos gastos com futebol sobre a receita pode ser considerado como um limite seguro.

Clubes menos endividados e com ausência de gastos excessivos com o clube social podem alcançar perto de 80%. Mas são raros os casos.

Índices muito elevados indicam gestão desequilibrada e risco para a saúde financeira da Indústria do Futebol.

Quais os clubes brasileiros têm altos índices de Custo com Futebol / Receitas?

Análise da Sports Value sobre os balanços dos clubes de 2024 mostra que em média os TOP 20 clubes do Brasil têm índice Custo Futebol / Receita total de 81%.

Uma boa parte do futebol brasileiro está acima de 73%.

Somente Cuiabá SAF, Athletico-PR, Corinthians, Palmeiras e Santos têm índices até 73%. E muitos mesmo com esse índice, fecharam com altas perdas, como Corinthians e Santos.

Índice Custo do futebol / Receita total- Em %.

Bahia SAF, Ceará, Fortaleza SAF, Cruzeiro SAF, Vitória e Red Bull Bragantino estão com índices acima de 100%. (Red Bull tem altos custos com CT, que estão registrados como custos com futebol).

São Paulo, Atlético-GO SAF, Botafogo SAF, Atlético-MG SAF e Vasco da Gama SAF apresentaram índices acima de 80%.

3. Endividamento controlado

Finalmente, um terceiro elemento importante para o Fair Play Financeiro é o controle concreto do endividamento líquido dos times.

O cálculo do endividamento líquido:

Dívida Líquida = Passivo Total – Ativo Circulante – Ativo Realizável

A história financeira dos clubes comprova que esse é o melhor mecanismo de análise de índices de endividamento no Brasil. Já que os clubes utilizam as receitas de venda de jogadores para compor o EBITDA. (Lucros Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização).

Assim, no Brasil, o fluxo de caixa a ser gerado depende de uma receita extraordinária, que são as transferências. No EBITDA somente deveria conter as receitas ordinárias, sem as transferências. Desse modo, o endividamento sobre receitas indica facilmente quais os clubes em situação mais complicada no Brasil.

Para a Sports Value, na regulação de um Fair Play Financeiro o índice não deveria ser superior a 2,0.

A média dos TOP 20 clubes do Brasil em 2024 está em 1,23.

Muitos clubes viram receitas crescerem com premiações e transferências de jogadores, inflando o valor de receita total. Em 2025 podem ter mudanças radicais no índice.

Índice Dívida Líquida / Receita

Atlético-MG SAF, Bahia SAF, Cruzeiro SAF e Corinthians estão com índices acima de 2,0.

Vasco da Gama SAF, Vitória, Internacional, Santos e Botafogo SAF podem ter um aumento do indicador em 2025.

Conclusões

Amir Somoggi, sócio da Sports Value participou do podcast Preleção para falar sobre a gestão do futebol brasileiro, SAFs e Fair Play Financeiro.